domingo, 26 de janeiro de 2014

JORDÂNIA

Entrei na fronteira da Jordânia a pé, vinda de Eilat, no sul do Egito. Uma avaria nos computadores fez com que o carimbo do "Free visa" no passaporte, visto grátis que é concedido nesta fronteira, demorasse umas duas horas. A fila de espera era já considerável e aproximava-se a noite.
A povoação próxima desta fronteira é Aqaba e para ir até ao centro o único transporte disponível é o táxi. O preço da corrida está afixado nuns painéis, são 11 dinars jordanianos para percorrer nem 10 minutos e parando para levantar dinheiro numa ATM são mais 3 ou 4.

O dinar equivale praticamente ao euro. Fronteira significa turistas, logo preços inflacionados... Fui para o hotel que tinha reservado de véspera, deixei as coisas no meu quarto privativo com preço de hostel (20 dinars) e saí para jantar.
Dei uma volta na marginal e pus os pés na areia da praia para ver pela primeira vez o Mar Vermelho. E se em Israel olhamos de soslaio a quantidade de gente armada que se vê por todo o lado, mas onde o turista é deixado completamente à vontade, aqui é sobre a turista, a mulher branca, a ocidental que se passeia sozinha, que recai o "outro olhar". Mal entramos no país apercebemo-nos que a cultura, a forma de estar e pensar, é outra, e o papel da mulher na sociedade certamente diferente...
Todavia, a rainha Rania, uma palestina nascida no Kuwait, esposa do rei Abdullah II da Jordânia, tem sido uma voz feminina progressivamente forte no mundo árabe e uma poderosa defensora dos direitos das mulheres, fomentando a educação e repudiando práticas tradicionais como os "crimes de honra", o assassinato de mulheres por membros da sua própria família por alegadas violações ao "código moral islâmico".
Aqaba é a única cidade costeira da Jordânia situada no extremo sul do país, na ponta nordeste do Mar Vermelho. É uma das principais atrações turísticas da Jordânia, famosa pela sua água morna e rica vida marinha. No entanto, as atividades industriais e comerciais continuam a ser importantes, devido à localização estratégica da cidade como único porto marítimo do país.
Aqaba, Mar Vermelho
Depois da visita à cidade dirigi-me à praça dos autocarros para seguir viagem. Era 6ª feira, não havia autocarro para Wadi Rum. Equacionava a forma de prosseguir quando inesperadamente ele apareceu. Jean-Huges Lime, escritor e comediante francês, um peculiar e divertido contador de histórias, o companheiro ideal nesta aventura.
Partilhámos um táxi para percorrer os cerca de 60km até Wadi Rum que ficou pela módica quantia de 20JD. O preço seria com certeza muito mais elevado se fizéssemos este percurso a partir da fronteira e não do centro da cidade.
Passamos o Visitor Center e estacionamos no fim do alcatrão, na pequena povoação de Rum, onde vivem várias tribos beduínas.

A partir daqui as incursões no deserto fazem-se de camelo ou de jipe. Almoçámos calmamente e negociámos então com um guia local, de quem eu já tinha o contacto, as atividades em Wadi Rum. Acabámos por aderir a um programa de dois dias com visitas, refeições e dormidas em tendas do deserto que saiu por 70JD a cada.
Deixámos as mochilas nas tendas do acampamento beduíno, feitas com pêlo de cabra, e saímos então com o nosso guia e condutor do jipe para explorar este maravilhoso deserto repleto de imponentes formações rochosas, verdadeiras obras de arte da Natureza.
Um destes impressionantes penhascos é conhecido como "Os sete pilares da sabedoria", de acordo com o título do livro de TE Lawrence, o arqueólogo, militar, agente secreto, diplomata e escritor britânico.

Lawrence tornou-se famoso pelo seu papel como oficial britânico de ligação que baseou aqui a sua operação para ajudar os árabes na revolta contra o Império Otomano durante a Primeira Guerra Mundial. O facto de adotar costumes e vestimentas árabes rendeu-lhe o nome de "Lawrence da Arábia", que foi também o título do filme de 1962 baseado na sua vida. Uma grande parte do filme foi filmado no deserto de Wadi Rum.
Casa de Lawrence 
Wadi Rum, também conhecido como o Vale da Lua, é um vale cortado na rocha de arenito e granito e é o maior Wadi da Jordânia, situado a leste de Aqaba e cem quilómetros a sul de Petra.
No vale surgem labirintos de falésias gigantes e rochas monolíticas erguem-se drasticamente a partir do chão dourado do deserto.
 Khaz'ali Canyon
Este deserto tem sido habitado desde os tempos pré-históricos, e muitas culturas, incluindo os nabateus, deixaram a sua marca na forma de pinturas rupestres, graffitis e templos.
Há inscrições escritas em Thamudic a partir do século IV a.C. Wadi Rum era uma paragem importante ao longo da principal rota comercial das caravanas devido à disponibilidade de água. As inscrições, que mais se parecem com desenhos de animais e pessoas, eram mensagens deixadas por comerciantes para outros comerciantes e continham indicações sobre a localização das fontes de água.
 
De vez em quando paramos nas várias tendas de beduínos que por ali há e onde o chá nos é sempre oferecido, independentemente de se fazer ou não alguma compra dos seus artigos de artesanato.
Depois do sol se pôr regressamos ao nosso acampamento onde a comida para o jantar está a ser preparada segundo os hábitos tradicionais dos beduínos. Uma das especialidades é frango cozido sob a areia do deserto, genericamente conhecido como "zarb", idêntico ao churrasco mas mais suculento.
Ao serão é espetacular ficarmos simplesmente deitados lá fora na areia macia do deserto a observar o céu intensamente estrelado, tão brilhante, tão nítido e tão perto de nós! A minha máquina fotográfica não tem potencial para registar este fenómeno... E a visita a este lugar tão cativante prossegue por todo o dia seguinte.
"Todos os homens sonham, mas não da mesma forma. Os que sonham de noite, nos recessos poeirentos das suas mentes, acordam de manhã para verem que tudo, afinal, não passava de vaidade. Mas os que sonham acordados, esses são homens perigosos, pois realizam os seus sonhos de olhos abertos, tornando-os possíveis." — T.E. Lawrence, Os Sete Pilares da Sabedoria.
Umm Fruth Rock Bridge
Lawrence descreveu Wadi Rum como um deserto "vasto, que ecoa e semelhante a Deus." De certa forma, este local fascinante e mágico no Médio Oriente era o espaço que na altura eu precisava para tentar gerir o forte turbilhão emocional que me assolou ao dar-se o meu regresso inesperado e precipitado ao Ocidente, após a minha longa "Viagem Incógnita" de quatro anos pelo Oriente. Fica-me gravado em todos os sentidos.
Nesta altura, dezembro de 2013, havia poucos turistas, fosse por não ser época alta (primavera e outono), fosse por influências do conflito na Síria. Após o pequeno-almoço no acampamento, regressámos todos os que ali estavam, umas sete ou oito pessoas, numa carrinha de caixa aberta à pequena povoação de Rum.
Eu e o Jean tínhamos planos de viagem idênticos e apanhámos uma carrinha de nove lugares direta para Wadi Musa, que partiu às 8h30 da manhã. A meio do caminho avistavam-se os resquícios da neve que tinha caído há umas semanas atrás.
Atravessámos a linha de caminho de ferro que fazia parte da rede ferroviária Otomana que ligava Damasco a Medina. A sua construção, que visava fazer a ligação até à cidade sagrada de Meca, foi interrompida pela eclosão da Primeira Guerra Mundial, tendo a linha sido várias vezes danificada em combate pela guerrilha liderada por TE Lawrence durante a Revolta Árabe, que emboscou comboios otomanos. Quando a Jordânia foi formada em 1946, a ferrovia serviu como a empresa ferroviária estatal da Jordânia, apesar de não ser propriedade do Estado.
Wadi Musa é a cidade base para visitar Petra. É uma pequena povoação situada numa encosta, com descidas e subidas acentuadas. Não tínhamos qualquer reserva de albergue mas eu tinha a indicação de uma hostel que se veio a provar fora de série e que recomendo vivamente: Valentine Inn. Reconheci o nome da hostel inscrito numa carrinha que esperava turistas na paragem dos autocarros e que nos levou para lá (éramos só nós os dois). Na receção informaram que o preço do quarto inclui as refeições, jantar e pequeno-almoço. E ainda para mais levam os hóspedes, gratuitamente, a certas horas do dia, até à entrada de Petra. Deixámos a bagagem e abastecemo-nos na vila enquanto o condutor nos esperava para nos deixar às portas do parque.
Ficaríamos uma noite na hostel e teríamos dia e meio para visitar uma das 7 novas maravilhas do mundo, prosseguindo viagem no dia seguinte, ao fim da tarde. O passe para um dia de visita a Petra custa 50JD e para dois 55JD, só mais cinco dinars de diferença, o que portanto vale a pena até porque Petra tem imenso que ver e uma extensão muito superior ao que eu própria imaginava. Há alguns transportes à disposição mas nós andámos sempre a pé.
Situada entre o Mar Vermelho e o Mar Morto e habitada desde tempos pré-históricos, Petra era já no século VI a.C uma importante rota comercial situada entre a Península Arábica e Damasco (Síria). No ano 312 a.C. foi colonizada pelos Nabateus (uma das tribos árabes) que a tornaram sua capital. Durante a época helenística e romana tornou-se um importante entreposto de caravanas para o incenso da Arábia, as sedas da China e as especiarias da Índia, uma encruzilhada entre a Arábia Saudita, o Egito e a Síria-Fenícia.
O acesso às partes mais densas da cidade faz-se por verdadeiras fendas cavadas nas montanhas de rocha nas quais vamos avistando algumas obras esculpidas. A certo ponto a fenda acaba, o recinto abre-se e surge-nos, imponente, a obra ícone de Petra que foi cenário do filme “Indiana Jones e a última cruzada”: o Tesouro!
Petra é meia construída, meia esculpida na rocha e é cercada por montanhas repletas de passagens e desfiladeiros. Um engenhoso sistema de gestão de água permitiu a colonização de uma área essencialmente árida durante o período Nabateu, romano e bizantino. É um dos sítios arqueológicos mais ricos e maiores do mundo, com uma paisagem dominada pelo arenito vermelho, onde antigas tradições orientais se misturam com a arquitetura helenística.
Continuando a caminhada, tomámos uma escadaria à esquerda em direção aos obeliscos e ao local dos sacrifícios de onde temos uma vista panorâmica da região.
O nome Petra vem do grego e significa rocha. E logo nos apercebemos que aqui a própria rocha é já de si uma obra de arte com texturas, veios, formas e cores fantásticas.
Passámos o Monumento do Leão e o Complexo do Jardim do Templo e andávamos por ali num descampado, sem outros turistas à vista, quando um beduíno nos chamou para visitar a casa dele, qual gruta embutida na rocha.
Mas não nos podíamos demorar, entardecia e tínhamos ainda um longo caminho a percorrer até à porta de saída. Regressámos ao albergue cheios de fome e preparámo-nos para jantar.
E que jantar nos aguardava! Um self-service com imensa variedade à escolha. Deliciei-me com a saborosa comida que era sobretudo vegetariana. O convívio é também agradável não só com os outros viajantes como com os locais que aqui se dirigem e inclusivamente tocam e cantam ao serão. Um must!
No dia seguinte acordámos cedo e depois do pequeno-almoço retomámos a visita a Petra.
Por volta da década de 60 antes de Cristo, Petra é dominada pelo Império Romano passando a província do mesmo e perdendo importância, mas mantém todavia uma certa autonomia. Testemunho disso é o Teatro Romano que encontramos mais adiante, o qual tinha uma capacidade para mais de 7 mil pessoas, facto extraordinário há dois milénios atrás!
Mas neste dia tínhamos pela frente um belo estirão até ao Mosteiro para onde logo nos dirigimos. O percurso, sempre com escadaria e subidas íngremes, pode ser feito de burro ou de cavalo e o preço convém ser negociado, mas nós decidimos fazer mesmo o exercício a pé.
Desde a entrada do parque são mais de duas horas até aqui chegar! O Mosteiro é tanto ou mais fascinante que o Tesouro. Um pedaço da montanha foi literalmente consumido para que esta maravilhosa obra fosse realizada.
O local oferece vistas panorâmicas mas antes de as apreciar nada melhor que nos sentarmos para um chá com os locais, na sua maioria vendedores, claro está, que nos oferecem a bebida.
No entanto choca ver que logo de pequeninos a vida aqui é esta. As crianças, de semblante triste, já têm a resposta montada quando lhes perguntamos pela escola, só vão dia sim dia não. O que é certo é que aqui rapidamente aprendem a falar inglês e têm sotaques fantásticos, embora não saibam ler nem escrever. E como dizem os adultos: não é preciso viajar porque o mundo vem até eles...
No final da descida, no regresso, comemos qualquer coisa no grande restaurante que fica perto do museu, antes de continuarmos a visita.
Em 395 dá-se a fundação do Império bizantino por Constantino, a religião cristã propaga-se e influencia a vida da cidade. São então construídas várias igrejas.
Petra prosperou, independentemente do império que a dominou, mas dois revés originaram o declínio do local. Dois terramotos que arrasam a cidade e a deixaram praticamente destruída e o gradual enfraquecimento da rota comercial que foi a responsável pela sua formação. Petra nunca mais recupera, passa a ter uma reduzida população e torna-se uma simples vila.
Mais acima encontramos os túmulos reais, esculpidos na rocha, onde foram sepultados vários dos governantes de Petra. E há ainda outras construções que não foram escavadas na pedra e que estão totalmente em ruínas, mas cujos vestígios dão mostras da influência dos vários estilos que Petra sofreu.
A conquista da região pelo islamismo não acarreta grandes mudanças, não houve interesse por Petra. Por volta do início do século VIII, Petra passa a ser ocupada por alguns cruzados, mas vai sendo gradualmente esquecida nos séculos seguintes até que, no ano 1187, Saladino toma posse da região. Por essa altura, em raríssimas ocasiões, há registos dela. E Petra cai no esquecimento total por séculos!
Em 1812, um suíço chamado Johann Ludwig Burckhardt “redescobre” a cidade para o mundo. E a partir daí, missões arqueológicas, turistas e peregrinos começam a deslocar-se à cidade, lentamente e cada vez mais, favorecendo o desenvolvimento económico da região.
A 6 de Dezembro de 1985, Petra foi reconhecida como Património da Humanidade pela UNESCO. A 7 de Julho de 2007, foi eleita, em Lisboa, uma das Novas sete maravilhas do mundo.
Cansados de mais um dia em cheio de caminhadas e visitas, dirigimo-nos para a estação de autocarros, mesmo ao lado da entrada para Petra e onde deixáramos os sacos guardados. Apanhámos o autocarro para Amman que partiu cerca das 17h00 sob chuva miudinha, uma viagem que demora cerca de quatro horas.
Chegados à capital da Jordânia, albergámo-nos num hostel para onde o Jean já havia telefonado e saímos para jantar. Muitos refugiados palestinos vivem na cidade e a comida típica desses territórios encontra-se por todo o lado, como a shwarma (sanduíche de cordeiro com legumes no pão árabe), falafel (bolinho de grão-de-bico) e hummus (pasta de grão-de-bico). E descobrimos depois uma bebida especialmente agradável: o sahlab (leite fervido com amido, coberto com vários ingredientes esmagados como pistachos, coco e canela).
No dia seguinte de manhã, saímos para ver um pouco desta cidade que tem por volta de 4 mil anos. É uma das mais antigas cidades do mundo continuamente habitadas.
Amã, Teatro Romano
A colina da Cidadela de Amã, conhecida como Jabal al-Qal'a, alberga, entre outras construções, o Templo de Hércules, semelhante ao Templo de Artemis em Éfeso, que se diz ter sido construído pelo imperador romano Marco Aurélio, que reinou de 161 a 180 d.C.
Ao meio-dia fizemos o check-out no albergue, situado no centro da cidade antiga, e partilhámos um táxi até à fronteira. Depois das formalidades de saída do país somos conduzidos numa carrinha para a fronteira de Israel de Allenby Bridge. Isto no último dia do ano 2013.
A partir daí seguimos numa "sherut" para Jerusalém onde eu e o Jean nos separámos. Ele seguiu direto para a passagem de ano em Tel Aviv onde apanharia o avião dois dias depois, enquanto eu fui passar os últimos cinco dias de férias que me restavam no norte de Israel. Esta viagem continua aqui: