sábado, 20 de setembro de 2014

BUTÃO

Há vários anos que queria visitar o Butão e até já tinha estado na fronteira Jaygaon-Phuntsholing em 2006, tendo então confirmado in loco, após longa travessia pela Índia, que realmente não é possivel, para os turistas ocidentais, visitar o Butão de forma independente. Assim, este sonho acabaria por só acontecer no final de julho de 2014, tendo eu tratado da viagem através de amigos no Nepal. Um voo matinal de cerca de uma hora de Kathmandu a Paro, em avioneta da Druk Air, sobrevoando os Himalaias. Pena que o tempo, encoberto, não permitisse vislumbrar as fabulosas montanhas.
Aeroporto de Paro

A viagem é obrigatoriamente organizada e pode custar de 180 dólares, em época baixa, a 250 dólares, em época alta, por dia, no Butão, fora o custo do visto e do avião. Esse custo inclui todas as visitas e deslocações, em carro particular, acompanhadas de guia e motorista, toda a alimentação e todo o alojamento em hotéis de categoria superior ou resorts. Ou seja, como o pacote é previamente pago, só se necessita de dinheiro no país se houver intenção de fazer compras ou despesas de caráter pessoal. A unidade monetária do Butão é o Ngultrum que não pode ser trocado por moedas estrangeiras.
Foi uma viagem curta, de apenas quatro noites, desafiando a monção, época baixa, portanto. Felizmente, os dias apresentaram-se geralmente soalheiros com alguma queda de chuva normalmente à noite. Mas o que permaneceu escondido o tempo todo, como já é de prever nesta altura, foram os cumes nevados da cadeia dos Himalaias que domina o norte do país e que são mais visíveis de outubro a maio. A parte sul do país tem menor altitude e contém vários vales férteis densamente florestados cruzados por inúmeros rios que se escoam para o rio Bramaputra, na Índia.
Depois de um histórico discurso do rei Jigme Singye Wangchuck, no dia nacional, em dezembro de 2006, abdicando a favor do seu filho Jigme Khesar Namgyal Wangchuk e anunciando a realização de eleições democráticas, os butaneses foram às urnas em 2008, pondo fim a mais de um século de monarquia absoluta e fazendo a transição para a monarquia constitucional.
O chefe religioso do reino, o Je Khenpo, goza de uma importância quase idêntica à do rei. A maioria da população segue o Budismo Vajrayana, que também é a religião de Estado. O hinduísmo é a segunda maior religião, praticada pelos Lhotsampas ("As pessoas do sul"), cidadãos butaneses de origem nepalesa que, no início do século XIX, foram convidados a povoar as planícies do sul. O Butão e a Tailândia são os últimos reinos budistas do mundo.
National Memorial Chorten
De Paro, onde se situa o único aeroporto internacional do Butão, seguimos para a capital do reino, a umas duas horas de viagem. Thimphu, a 2.350m de altitude, tornou-se a capital em 1961 e é hoje a maior cidade, com cerca de 90.000 habitantes. Thimphu contém a maioria dos edifícios políticos mais importantes do Butão, incluindo a Assembleia Nacional da democracia parlamentar recém-formada e o palácio Dechencholing, a residência oficial da venerada família real butanesa.
Thimphu
Thimphu é o centro político e económico do Butão, com uma base agrícola e pecuária dominante. O turismo ajuda a economia e é estritamente regulado pelo governo com o objetivo de desenvolver um turismo qualitativo que não interfira com a cultura e as tradições do reino. Depois de séculos de isolamento e de muitas discussões sobre o possível impacto sociocultural, o país abriu as portas aos estrangeiros em 1974, permitindo a entrada de um número limitado de turistas.
Em 1999, o governo suspendeu as suas proibições de difusão televisiva e permitiu aos seus cidadãos o acesso à Internet. O primeiro carro fez a sua aparição no Butão há 50 anos, quando foi construída a primeira estrada a partir da fronteira com a Índia para Thimphu. Este isolamento, a baixa população e os extremos topográficos do país, levaram o Butão a manter também um dos ecossistemas mais intactos do mundo.
O Takin, o animal nacional do Butão, é uma espécie de cabra-antílope que vive em pequenos grupos de cerca de 20 indivíduos, no leste dos Himalaias e que podemos admirar no mini-zoo de Thimphu.
Uma das características mais marcantes do Butão é o seu vestuário tradicional. Os homens usam o "gho", uma túnica que dá pelo joelho amarrada na cintura com um cinto tradicional designado por "kera". As mulheres usam o "kira", um vestido longo, até os tornozelos, acompanhado por uma jaqueta exterior conhecida como "tego".
Em Thimphu podemos ainda ver o polícia sinaleiro nas ruas e assistir a uma competição de tiro com arco, declarado o desporto nacional em 1971, quando o Butão se tornou membro da Organização das Nações Unidas. Realiza-se uma grande competição nas comemorações do Ano Novo Butanês e Tibetano. A distância do jogador ao alvo é de 130m e os alvos são menores do que os olímpicos oficiais. Os arcos são feitos de bambu.
As visitas passam também pelo mercado e uma fábrica de papel tradicional, a Biblioteca Nacional, o Instituto de Medicina Tradicional, o Museu da Cidade, o National Memorial Chorten e o Buddha Park, onde se encontra a maior estátua de Buda do país. Festivais de máscaras e dança realizam-se em datas específicas.
Após o jantar e a primeira noite no Hotel Migmar, em Thimphu, seguimos mais para norte do país, rumo às montanhas cujos picos mais elevados, com mais de 7.000m de altitude, teimavam em esconder-se nas nuvens baixas. O ponto mais elevado do Butão é o Gangkhar Puensum com 7.570m, que nunca foi escalado.
Paramos em Chula Do Pass, uma passagem alta a 3.050m de altitude, onde se encontram os Druk Wangyal Chortens, um conjunto de 108 monumentos religiosos construídos em 2004 para "celebrar a estabilidade e o progresso que Sua Majestade trouxe para a nação" e que refletem as tradições espirituais e artísticas do Butão.
O almoço é em Chimi Lhakhang, uma pequena aldeia rodeada de verdejantes arrozais, a área mais fértil do Butão. Aqui visitamos o Templo da Fertilidade, construído em 1499 pelo guru Drukpa Kuenley, conhecido como "O Divino Homem Louco". Falos de madeira são frequentemente encontrados pendurados nos quatro cantos das casas ou pintados nas paredes, com a crença comum de que isso ajuda a espantar os maus espíritos.
Continuamos para Punakha, antiga capital do Butão e sede do governo até 1955. O mosteiro-fortaleza, Punakha Dzong, que serviu como sede do rei, é hoje a residência de inverno do Corpo Central Monástico do Butão liderada pelo Je Khenpo. Localiza-se entre dois rios de tonalidades diferentes, conhecidos como Phochu e Mochu, que se unem neste local, simbolizando a co-existência do masculino e do feminino.
Punakha
A fortaleza foi construída em 1637 sob comando do lama e líder militar Ngawang Namgyal. Foi este príncipe tibetano que, fugindo da perseguição religiosa no Tibete, no século XVII, unificou o Butão com o apoio da seita Drukpa, tornando-se no primeiro Zhabdrung Rinpoche do Butão, "aquele a cujos pés todos se prostram". Até aí o Butão existia como uma manta de retalhos de pequenos feudos em guerra que, depois da unificação, adquiriram uma identidade distinta butanesa. Shabdrung Ngawang Namgyal mandaria construir as mais importantes fortalezas do país que tinham como função suster as múltiplas invasões mongóis e tibetanas. 
O relato dessa época foi feito por Estêvão Cacella e João Cabral, os primeiros visitantes  europeus a entrar no Butão. Estes missionários jesuítas portugueses, que viajaram através dos Himalaias em 1627, encontraram-se com Shabdrung Ngawang Namgyel que descreveram como um anfitrião compassivo e inteligente, amante da arte e da escrita e que, de acordo com a sua posição de alto lama, se entregava à meditação, tendo acabado de completar um retiro de silêncio de três anos no Mosteiro Chagri. E foi daqui que, ao fim de uma estadia de quase oito meses, o padre Cacella escreveu uma longa carta ao seu superior em Cochim, relatando as suas viagens. Foi também ele que, pela primeira vez, descreveu aos europeus um lugar fictício chamado Shambala (termo sânscrito para "paz/tranquilidade/felicidade"), cujo mito inspiraria o Shangri-La de James Hilton no romance Horizonte Perdido.
O Shabdrung sentiu-se orgulhoso em ter os jesuítas como convidados na sua corte e mostrou-se relutante em conceder-lhes permissão para partir, tendo-se oferecido para apoiar os seus esforços de proselitismo com mão de obra e fundos para a construção de igrejas. Mas os portugueses prosseguiram para o Tibete em busca da igreja apóstata que se dizia isolada no coração da Ásia Central (isto relaciona-se com a Pedra Nestoriana, erguida no ano 781 e redescoberta em 1625, com inscrições em chinês e sírio descrevendo a existência de comunidades cristãs em cidades do norte da China, tendo sido o missionário português Álvaro Semedo o primeiro europeu a ver esta estela).
O território do Butão ocupava então uma área muito maior mas, a partir de 1772, a Companhia Britânica das Índias Orientais começou a empurrar as suas fronteiras através de uma série de guerras e tratados. Parte do território foi perdido para sempre para a Índia britânica sob o Tratado de Punakha, assinado em 1910, pelo qual os britânicos concordaram em não interferir nos assuntos internos do Butão e este permitiu à Grã-Bretanha dirigir os seus assuntos estrangeiros.
Wangduephodrang
Damos meia volta e continuamos para Wangduephodrang, uma bonita localidade situada na confluência de dois rios, mais a sul. Fico alojada no Dragon Nest Resort onde é servido o jantar e o pequeno-almoço do dia seguinte, tudo já incluído no preço do pacote. Só as bebidas alcoólicas e de lata terão custo adicional, se consumidas.
No terceiro dia regressamos a Thimphu que fica a cerca de 70 km. As três horas habituais para percorrer a estrada estreita e sinuosa transformam-se em algumas mais já que estão em curso trabalhos de melhoramento das estradas, sendo necessário parar o trânsito de tempos a tempos. Volto a almoçar no mesmo restaurante da capital onde as empregadas butanesas de origem nepalesa já me conhecem como a turista que diz umas coisitas em nepalês, algo a que acharam muita piada.
E regressamos a Paro.
Considerado um dos mais bonitos vales de todo o país, Paro foi historicamente o centro das mais importantes rotas de comércio com o Tibete. A cidade, situada a 2.250m de altitude, abriga alguns dos mosteiros e templos mais emblemáticos do Butão e possui uma rica arquitetura tradicional.
Rinpung Dzong é um mosteiro-fortaleza com vista para o vale de Paro. Foi mandado construir em 1645 por Ngawang Namgyal sobre as antigas fundações de um mosteiro construído por Padmasambhava, no início do século X. Durante séculos este imponente edifício de cinco andares, serviu como uma eficaz defesa contra inúmeras tentativas de invasão por parte dos tibetanos.
Paro Dzong
Na colina acima do Dzong está uma torre de vigia antiga chamada Ta Dzong que, desde 1967, tem sido o Museu Nacional do Butão. Através de uma ponte medieval abaixo do Dzong fica o Palácio Ugyenpelri, uma residência real construída por Tshering Penjor.
Ao longo da rua principal de Paro há um complexo de arquitetura tradicional, com edifícios ricamente decorados que abrigam pequenas lojas, instituições e restaurantes. A arquitetura é uma das maiores atrações do país. Os prédios e casas têm estrutura de madeira e taipa (barro amassado). As estacas são esculpidas e encaixadas umas nas outras sem a ajuda de pregos. O acabamento dos telhados é feito e pintado à mão.
As últimas duas noites são passadas no Janka Resort, perto do centro da cidade. No quarto dia madruga-se para começar cedo a escalada ao famoso Mosteiro Taktsang, mais conhecido como "Ninho do Tigre", 10 km a norte de Paro.
O mosteiro foi construído na face de um íngreme penhasco onde está empoleirado a cerca de 1000m de altura, acima do vale de Paro. A subida é acentuada, começa nos 2.130m e vai até aos 3.120m de altitude, demorando cerca de duas horas. Não é preciso preparação física especial mas uma boa condição ajuda, claro. Cada um poderá fazer a ascensão ao seu ritmo ou então alugar uma mula ou um pónei. No caminho há uma cafetaria para nos repousarmos um pouco e admirar a vista deslumbrante.
A partir daí a caminhada é muito cénica, através de uma floresta de pinheiros enfeitada com bandeiras de oração. O som de cascatas e o canto das aves quebram o silêncio. Perto da escadaria que antecede o mosteiro há uma queda de água de 60 metros de altura que se projeta num lago sagrado. 
O Mosteiro Taktsang é um dos mais afamados do Butão e o lugar é muito sagrado para os butaneses que acreditam que Padmasambhava, pai do budismo no Butão, voou milagrosamente do Tibete até aqui montado no dorso de um fabuloso tigre. Foi construído em 1692 na boca da caverna Taktsang Senge Samdup onde o santo budista, também conhecido como Guru Rinpoche, teria meditado lá pelos anos 800 da nossa era. Dentre os vários mestres famosos que visitaram o local no passado consta o nome do famoso poeta tibetano Jetsun Milarepa. Os edifícios do mosteiro estão construídos na encosta vertiginosa da rocha e sete templos estão abertos ao público.
Tiger's Nest
A descida é muito mais rápida e feita também na alegre companhia de jovens monjas e monges butaneses, vários dos quais visitando pela primeira vez o mosteiro. Parei para almoçar na tal cafetaria onde me cruzei com outros, poucos, turistas que vi no país nesta época, nomeadamente espanhóis, chineses, tailandeses e indianos (sendo estes os únicos que podem viajar neste reino de forma independente graças à relação especial que existe entre o Butão e a Índia).
Segundo a ONU, o Butão é uma das nações mais pobres do mundo, mas foi avaliado como o país mais feliz da Ásia e o oitavo mais feliz do mundo, de acordo com uma pesquisa global realizada em 2006. A felicidade é levada a sério no país, o único do mundo a ter a Gross National Happiness (Felicidade Interna Bruta) como política pública. O conceito da GNH foi instituído pelo quarto rei, Jigme Singye Wangchuk, em 1972, para contrapor a ideia de que o PIB (Produto Interno Bruto), baseado em valores materiais, é que mede a qualidade de vida da população, transmitindo assim a mensagem de que a felicidade é mais importante do que o mero crescimento económico.
Os fundamentos da nação, assentes em ideais budistas, sugerem que o desenvolvimento benéfico da sociedade humana tem lugar quando desenvolvimento material e espiritual ocorrem lado a lado para se complementar e reforçar mutuamente. Os quatro pilares da Felicidade Interna Bruta são a preservação dos valores culturais, a promoção do desenvolvimento sustentável, a conservação do meio ambiente e uma boa governação, não tendo uma nação que ser budista para valorizar estes aspetos.
Templo Kyichu
Cá em baixo no vale, reencontrei as amigas monjas no Templo Kyichu Lhakang,  um dos 108 mosteiros construídos no século VII pelo imperador tibetano Songsten Gampo. O número 108 é místico para os budistas. O Templo Kyichu é um dos últimos três templos sobreviventes, dois no Butão e um no Tibete, conhecido como o Jokhang.
E depois da quarta e última noite em Paro, dirijo-me para o aeroporto internacional, sempre acompanhada de guia e motorista que me foram buscar cedo ao hotel. O aeroporto de Paro tem sido descrito como "o aeroporto comercial mais desafiador do mundo", com apenas uma pista de 1.980m de comprimento rodeada de montanhas com 5.500m de altitude. Apenas um punhado de pilotos estão certificados para aqui operar aviões comerciais. Voos em Paro são permitidos apenas durante o dia sob condições meteorológicas visuais.
No aeroporto reencontrei uma espanhola, dois indianos e uma chinesa que tinha conhecido durante a minha visita ao Butão. Regressei com esta a Kathmandu, no Nepal, e reencontrar-nos-íamos mais tarde em Pokhara. Este voo foi agora num airbus que seguiria depois para a Índia. E para que esta curta mas bonita viagem ao Reino da Felicidade terminasse em beleza, os picos nevados revelaram a sua magnitude perscrutando as nuvens, avistando-se igualmente o cume mais alto do globo, o Everest.
Himalaias